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vila Nasci, cresci, vivi – ainda vivo – na Vila. A Vila foi um bairro, de início afastado do Centro de São Paulo, com terrenos baratos e habitado, quase em sua maioria, por portugueses, que adornavam a frente de suas casinhas geminadas com azulejos, como se fora na "terrinha". Comprava de tudo, fiado, na venda de Seu João, que anotava as contas numa caderneta e meu pai as pagava ao final de cada mês. Atravessando a rua, encontrava o Seu Fermínio na sua farmácia, onde exercia as funções de farmacêutico, médico e enfermeiro. Solenemente declarado persona non grata para as bundas da meninada do bairro, principalmente quando saía pelas ruas com aquela hedionda caixinha de metal, prenúncio da terrível injeção! Jogava bola no campo do "1º de Maio", fazia guerra de mamona, pião, bolinha de gude, dava "amasso" nas empregadinhas atrás das árvores. Furtava pão e leite deixado na porta das casas, de madrugada, voltando dos bailes de formatura. Ah! O bonde. O bonde, para mim, era mais que um
transporte, era um meio de diversão.
Em tempos de Páscoa, a turminha fazia um "Judas" de pano e esperava o bonde. Iluminação tênue nas ruas, simulava uma briga e quando o bonde estava perto, o Judas era jogado nos trilhos. Freiada brusca, areia se espalhando e a inesquecível cena de ver o motorneiro português puto da vida. O mais engraçado é que o português ficava tão bravo que não levava o boneco embora, arremessava-o longe. Era resgatado e ficava na espera do próximo bonde... Lembro, entre vários amigos, de três: Bonecão, Badaró e Lábios de Mel (imaginem o tamanho do beiço). Três negros bravos. Três anjos da guarda. Ninguém tirava linha comigo. Muito tempo depois, já advogado, fui à Penitenciária, por conta de um favor para certo cliente. Já não estava eu no melhor de meu humor, posto que, civilista de carteirinha, não gosto de trabalhar com crime. Nem tanto pelo bandido, pois até aí, a gente sabe com quem está lidando, mas... Passava pelo pátio, quando senti um toque nas costas e ouvi um chamado, tímido: "Doutor"! Virei e vi um negro, cabelos grisalhos, maltratado, que repetiu: "Doutor"! Neste momento, vi a imagem de um negro forte, calça branca e camisa vermelha, tocando tamborim pela Escola de Samba "Coração de Bronze", dentro de um bonde fretado... Lábios de Mel... Aproximou-se, contou sua história, cumpria pena por homicídio. Matou um desafeto numa briga de rua... Negro bom nas artes da capoeira. Por mais que eu pedisse que me chamasse pelo nome, pelo apelido – Luizão – insistia ele no Doutor. Falou que seu tempo já tinha sido cumprido. Fui ver o seu processo, ele ganhou a liberdade. Até hoje, em cada Natal, Lábios de Mel me traz um presente e diz: "Doutor, qualquer bronca, fala comigo". Meu anjo da guarda negro. Ah! Badaró e Bonecão? Lábios de Mel me disse que eles nunca "puxaram cana"... duas balas os libertaram... Linha 28.
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Luiz
Alberto Calil
já correu de carro, fez teatro, brigou à beça. Produziu shows, escreveu algumas coisas (até horóscopo), mentiu muito, namorou demais, soprou um sax, hoje, é boêmio e advogado. lacadv@globo.com.br midi: Lábios de Mel, do Captain Kong especialmente para este conto.
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