para Dona Santinha Sales
para o Zeca, in memoriam
para Mia, onde estiver
para Laura, que acabou de chegar

Naquela tarde friorenta de julho, a notícia da morte do professor Camargo caiu como uma bomba sobre a pequena comunidade. O Pacheco, gerente da Caixa Econômica, não se cansava de circular entre os grupinhos que se amontoavam na calçada, contando o que havia acontecido. Na hora do almoço, preocupado porque a livraria continuava fechada, foi bater no portãozinho dos fundos, que dava para os aposentos do professor. Ninguém respondeu, e ele, por via das dúvidas, avisou o delegado. A polícia arrombou a porta e o velho foi achado morto, a cabeça caída sobre a escrivaninha.

O investigador Jarbas sentiu um aperto no coração ao entrar na loja repleta de estantes. Quantas vezes, em criança, não passara tardes inteiras ali no meio dos livros, devorando gibis, histórias de aventuras ou simplesmente ajudando o professor Camargo a catalogar as obras? Crescera naquele sebo, a única verdadeira "biblioteca" de Santa Clara do Vale, e se não fosse o velho, jamais teria pensado em estudar. Adolescente, deixava de acompanhar a "turma" para ficar empoleirado exatamente no topo daquela última prateleira, que batia quase na clarabóia do teto. Era seu melhor refúgio e o velho fazia de conta que não o percebia lá, espremido entre os grossos volumes do Tesouro da Juventude e as Obras Completas de Rui Barbosa. Vinha dessa época seu gosto por romances policiais e de mistério e ainda se lembrava do sorriso divertido do velho quando lhe dissera que desejava ser "detetive". "Jarbas", ele havia respondido, "um bom detetive precisa usar uns óculos de ler a alma. A verdade sobre os seres humanos nem sempre é cristalina." Só compreendeu direito o significado dessas palavras muitos anos mais tarde. Mas jamais se esqueceu delas, assim como nunca pôde esquecer o dia em que o velho o presenteara com uma bela edição do Hamlet, dizendo que Shakespeare havia escrito aquele "policial" havia quatrocentos anos...

Perdido nas recordações, o investigador Jarbas nem tinha se dado conta de que estava há um bom tempo parado, os olhos fixos na escrivaninha onde morrera o amigo. Com um suspiro, foi sentar-se na cadeira giratória, correndo os olhos pela confusão de livros, jornais antigos e papéis que se acumulavam a sua frente. O laudo da perícia acusava morte por envenenamento e as primeiras conclusões indicavam um provável acidente. Como de hábito, o professor Camargo tinha ficado trabalhando até de madrugada. Lá pelas tantas, preparou uma xícara de chocolate e a trouxe, com o pacotinho de açúcar, para a escrivaninha. Entretido com alguma coisa, enganara-se ao adoçar a bebida, metendo a colher noutro pacote que se achava por acaso ali em cima. Era arsênico.

O delegado era de opinião que o velho usava o veneno para combater os ratos e acabara vítima de um descuido. A polícia técnica já havia recolhido as impressões digitais e levado amostras para análise, mas a xícara e os dois pacotes ainda estavam no mesmo lugar. A pedido de Jarbas, nada fora tocado.

Girando a cadeira de um lado para outro como tantas vezes havia feito em criança, ele dizia a si mesmo que provavelmente o delegado estava com a razão. Ficou olhando o pacote de arsênico, notando o papel desbotado, quase se desfazendo. Nunca ouvira o professor se queixar de ratos... Se esse pacote fosse dele, devia tê-lo adquirido há muitos anos. E por quê, justamente naquela noite, o velho cismara de mexer com o veneno? A hipótese de suicídio fora levantada no início, mas descartada em seguida. Não havia nenhum bilhete, nenhum sinal de um ato premeditado. E conhecendo o professor como conhecia, Jarbas se negava terminantemente a aceitar que aquela entusiasmada paixão pela vida tivesse diminuído.

No canto esquerdo da mesa havia um  álbum de fotografias, aberto. Jarbas estendeu a mão, analisando os retratos amarelados pelo tempo. Reconheceu na primeira folha o prédio da Tecelagem Branca, que ainda se conservava intacto na cidade, transformado agora em sede do clube Santaclarense. Noutra folha, uma moça morena, vestida de branco, sorria para o invisível fotógrafo. Mais adiante, a mesma moça, acompanhada de um homem de meia-idade, tendo ao fundo o Pão de Açúcar. "Lua-de-mel no Rio de Janeiro, 1918", dizia a legenda. Outra foto do casal, agora acompanhado de um garotinho vestido de pierrô. "Carnaval em Santos, 1919." Estranho, pensou o investigador. Lua-de-mel em 1918 e em 1919 já com um garoto daquele tamanho? Bem, não podia ser filho dos dois... Mas quem seria essa gente? Amigos do professor? Seria ele a criança? Não, em outro retrato aparecia de novo o menino e a legenda dizia "Carlinhos, 5º aniversário". O professor se chamava Júlio, embora quase ninguém soubesse disso na cidade. Ele sempre tinha sido "professor Camargo".

Jarbas deixou de lado o  álbum, pegando em seguida as folhas de almaço que estavam debaixo dele. Reconheceu a letra miúda e viu logo do que se tratava. Sempre que o velho comprava um lote de livros, anotava cuidadosamente os nomes das obras, para em seguida organizar um fichário. Ele gostava de saber com exatidão o que possuía no sebo. Aquela lista, no entanto, não havia sido concluída, o que indicava que o professor devia ter comprado recentemente alguma nova biblioteca. Olhou ao redor e viu num canto caixas grandes de papelão, cheias de volumes. Então era isso, Jarbas pensou, o velho estava examinando aquele material quando fez uma pausa para tomar o chocolate... Procurou a última anotação na folha de almaço. "Baú contendo recordações de família e outros", leu. Sim, ali estava o baú, encostado à escrivaninha. Era enorme e Jarbas notou de imediato que havia sido arrombado. Continha livros escolares, outros  álbuns de fotografias, cartões de Natal de cinqüenta anos antes, caixinhas fechadas. De repente, o investigador soltou um palavrão. Havia uma fina poeira branca sobre os  álbuns e outro tanto de pó caído num canto. Recolheu um pouco com um pedaço de papelão e chamou o policial que ficara na porta da livraria.

– Leve ao laboratório e aguarde o resultado – pediu. – Quero saber se também é arsênico.

Tinha quase certeza de que era o mesmo veneno do pacote sobre a escrivaninha. O professor encontrara o pacote no baú, abrira-o para verificar o conteúdo e o pusera de lado, entretido com as fotos. Podia ter até acontecido de não saber que se tratava de veneno.

Começou a procurar nas gavetas da escrivaninha a pasta com cópias dos recibos que o professor costumava emitir. Bastava saber a origem daquela biblioteca para descobrir de onde o veneno tinha vindo. Achou a pasta cinza na terceira gaveta. "Dez livros didáticos e vinte revistas", leu. "Dª Ruth de Oliveira. Coleção da revista Tio Patinhas, nº 1 a 100, sr. Jairo Queirós." O investigador Jarbas sorriu. Então o Jairo acabara vendendo a famosa coleção! Lembrava-se bem dos tempos do ginásio, das artimanhas que o grupinho inventava para convencer o Gordo a emprestar seus exemplares... "Biblioteca de dª Amélia Vasconcelos, paga ao dr. Anselmo Matias, advogado." Jarbas leu de novo, perplexo. A velha dos gatos tinha livros no casarão? Inacreditável! Nos últimos trinta anos de sua vida aquela mulher passara o tempo percorrendo as ruas atrás de gatos abandonados. Sempre carregava um saco com restos de comida que ia colocando nas amuradas das casas, para atraí-los. Desde menino Jarbas a conhecera; era uma dessas figuras típicas de cidadezinhas como Santa Clara. Ao lado do bêbado Bigorrilho, do turco que aparecia em todos os carnavais vestido de mulher, do maconheiro Pardal, a velha dos gatos acabara fazendo parte do cenário. De início tinha gerado muita celeuma, moradores indignados por encontrar comida azeda em seus portões tentaram impedi-la de prosseguir com sua cruzada, mas a velha resistira, impávida, trocando horários para não ser surpreendida, escondendo-se nos lugares mais improváveis até que os vencera pelo cansaço. Ninguém a importunara mais, embora boatos continuassem correndo sobre sua vida. Diziam que comia os gatos, que os usava em bruxarias, que os vendia à pastelaria do chinês onde eram transformados em carne moída. Jarbas sorriu ao lembrar como ele e outros garotos tinham passado longos anos sem provar os pastéis do China, certos de que o recheio era fornecido diariamente por dª Amélia. Afirmava-se também que a velha era riquíssima, mas por demais sovina, arrastando-se pelas ruas como mendiga e vivendo no casarão à margem do Paraíba em meio à sujeira e centenas de gatos que com ela dividiam o espaço. O certo era que havia morrido alguns anos antes, octogenária e meio senil. Fora achada na calçada da estação de trem. Aberto o casarão, encontraram-se lá  quase cem gatos, circulando pelos aposentos praticamente vazios. A sujeira verificou-se verdadeira, porém a fortuna continuava pura especulação. Quem poderia responder alguma coisa era o advogado Matias, que cuidara dos interesses de dª Amélia. Mas ele jamais revelara coisa alguma a respeito.

Jarbas foi examinar as caixas de livros e voltou ao baú. Tinham vindo do casarão, não restava dúvida. Não havia outros recibos na pasta cinza.

Retirou com cuidado o conteúdo do baú, abrindo ao acaso os  álbuns, mas nada encontrou de interesse, a não ser um pequeno caderno de capa preta, quase totalmente preenchido. Uma rápida olhada mostrou tratar-se de um diário, que começava em 1930. Ia sentar-se para lê-lo quando o policial retornou do laboratório, com o resultado da análise. Jarbas suspirou. Era arsênico.

Podia encerrar o caso ali se quisesse, concordando com a conclusão do delegado. O professor Camargo tinha morrido por causa de sua famosa distração. Mas alguma coisa continuava esquisita... Se a velha gostava tanto de gatos, iria se arriscar a usar arsênico no casarão?

Fechou a livraria e foi andando pela praça da Matriz, tão perdido em suas reflexões que nem respondeu aos cumprimentos dos conhecidos.

O dr. Anselmo Matias era um homenzinho magro, de idade indefinida, que olhava os interlocutores por detrás dos óculos de tartaruga. Havia herdado o escritório do pai, que durante quarenta anos fora o único advogado de Santa Clara do Vale. Quando Jarbas entrou na sala dele, foi recebido com um sorriso de surpresa.

– Investigador Jarbas, que prazer. Faz tempo que não aparece para uma prosa. Ou veio a serviço?

– Como está, dr. Matias? Infelizmente estou aqui a serviço.

– É mesmo? Pois estou a sua disposição. Algum problema na delegacia? Algum cliente meu?

– Não, não. Isto é, vim conversar sobre uma cliente sua, mas... Bem, estou investigando a morte do professor Camargo.

– Ah, o bom e querido professor! – O advogado suspirou. – Que grande perda para todos nós. Mas do que se trata, meu rapaz? Há suspeita de homicídio? O Pacheco me disse que foi um acidente...

– Tudo indica acidente, dr. Matias. No entanto, gostaria de esclarecer inteiramente as circunstâncias. – Em poucas palavras, o investigador relatou o que havia descoberto na livraria.

O homenzinho retirou os óculos e apertou os olhos com os dedos, num gesto de cansaço.

– Oh, Deus. Quer dizer que o veneno estava entre os livros do casarão.

– Era o que eu gostaria que o senhor me esclarecesse, dr. Matias.

– Jarbas, vendi os livros ao professor Camargo há mais de um mês e lhe pedi que fosse retirá-los assim que pudesse, antes que a USP tomasse posse do imóvel e do terreno. Mas...

– Como assim, dr. Matias? – Jarbas interrompeu. – A USP?

O advogado sorriu.

– Dª Amélia não deixou herdeiros e nesse caso os bens se tornam propriedade do patrimônio público. E no estado de São Paulo, fica tudo para a Universidade de São Paulo, não sabia? Bem, mas como ia dizendo, achei que os livros teriam melhor utilidade no sebo do professor Camargo, por isso me apressei em passá-los a ele, antes que... Se soubesse que essa minha infeliz idéia seria a causa da morte do nosso querido amigo! Na realidade, quis doar a biblioteca, mas você deve lembrar dos escrúpulos do velho. Não só fez questão de pagar, como me prometeu uma lista minuciosa do que fosse encontrado, já que nem eu podia dizer o que existia de interessante naquela sala trancada do casarão. O professor Camargo passou aqui para apanhar as chaves, há uns quatro dias, e me afirmou que iria retirá-los logo que combinasse o carreto com o Zé da Kombi. Provavelmente o baú estava junto e ele achou que continha livros.

– Enfim, dr. Matias, o senhor não sabia da existência do baú nem do pacote de arsênico.

– Não, Jarbas. Como lhe disse...

– Bem, não há dúvida de que o baú veio do casarão; era a última anotação na lista do professor Camargo. Sabe que me espantei em saber da existência dessa biblioteca? Nunca imaginei que a velha dos gatos gostasse de ler...

O dr. Matias riu, olhando Jarbas por cima dos óculos.

– E não gostava, meu jovem. Apesar de ter sido a mulher mais rica de Santa Clara, dª Amélia nunca freqüentou uma escola. Era analfabeta. A biblioteca pertencia ao marido dele, o dr. Aristeu Vasconcelos.

Interessado, Jarbas mexeu-se na poltrona, sem esconder que estava louco para ouvir a história toda. O advogado, percebendo, não se fez de rogado.

– Pouca gente sabe da vida de dª Amélia, porque nos últimos trinta anos todos se acostumaram a vê-la como uma pobre louca. Mas o marido dela foi cliente de meu falecido pai e o testamento foi feito em nosso escritório, por isso estou bem a par de tudo. Aliás, fui eu quem cuidou do enterro dela.

– A história da fortuna era verdadeira, então?

– Sim e não. Há quarenta anos Amélia Vasconcelos poderia comprar duas ou três vezes todas as propriedade de Santa Clara. Mas acabou pagando o tributo pela sua ignorância. Teimou em vender todos os bens que herdara para colocar o dinheiro a juros, nas mãos de agiotas. Nem meu pai conseguiu convencê-la de que era uma idéia estúpida. Conclusão: ao morrer, só lhe restava o casarão... e os gatos.

– Que loucura. Ela herdou tudo do marido?

O advogado Matias foi servir-se de um conhaque, tirando a garrafa de um armário trancado. Estendeu um copo ao investigador e tomou um gole antes de responder.

– Às vezes penso que a vida dessa mulher é um desses exemplos de fatalismo que nos fazem acreditar no destino. O marido dela, dr. Aristeu Vasconcelos, foi um poderoso empresário na década de vinte. Dono de fazendas de gado, exportador de café‚ comerciante, tornou-se o pioneiro em introduzir indústrias no vale. Aqui em Santa Clara, fundou a Tecelagem Branca, com máquinas importadas da Inglaterra. Quando se casou com dª Amélia, já era viúvo e pai de um menino de uns dois ou três anos.

Jarbas lembrou-se das fotos que vira na mesa do professor Camargo. Estava explicado o mistério das datas: casamento em 1918 e a foto do garoto já crescidinho em 1919.

– O interessante, Jarbas – o homenzinho continuou – é que o empresário conheceu a segunda esposa na fábrica. Amélia era uma simples operária, mas de beleza invulgar... De alguma forma conseguiu convencer o patrão a casar-se com ela. Uns quinze anos depois o dr. Vasconcelos morreu, após uma longa enfermidade que o manteve preso ao leito por quase dois anos.

– E assim a fortuna ficou para a viúva – o investigador concluiu.

– Engano seu, meu rapaz. Ficou para o menino. Dª Amélia teria usufruto das rendas durante a menoridade do garoto e depois, uma pensão vitalícia. No caso de o filho desaparecer, a herança ficaria para a única irmã do industrial e sua filha.

Jarbas deu um assobio.

– Caramba! Isso é que é amor conjugal! Mas como tudo acabou ficando para a viúva? O menino morreu?

– Exatamente dez meses depois da morte do pai. Desse fato eu me lembro bem; foi em 1932 e eu estava me preparando para seguir os combatentes constitucionalistas na Revolução. Despedia-me de minha mãe na sala, meu pai andava de um lado para outro, praguejando contra a minha "loucura", quando entrou o preto Joaquim, esbaforido, dizendo que dª Amélia havia achado o garoto sem vida no quarto. Carlos devia estar com uns dezessete anos, pois era pouco mais novo do que eu. Parti em seguida, até aliviado por meu pai não prestar mais atenção em mim, e só mais tarde pude saber do ocorrido.

– E o que havia acontecido, dr. Matias?

– O menino se matou, Jarbas. Mas só nossa família e dª Amélia sabiam disso.

– Como assim?

– A mulher era muito católica e implorou a meu pai que conseguisse um atestado de óbito declarando que Carlos tinha morrido de morte natural. Ela queria enterrar o enteado no jazigo da família Vasconcelos e temia problemas com o vigário, se fosse divulgado o suicídio.

– E seu pai concordou?

– Meu pai se condoeu do desespero dela, perdendo o enteado menos de um ano depois do marido. A cidade estava um caos por causa da revolução Constitucionalista; até o médico se encontrava ausente e haveria muita complicação, inclusive com a polícia, se o fato fosse ventilado. Então ele foi até um município vizinho, falou com médico amigo e trouxe o atestado.

– Dr. Matias, mas assim mesmo ela não herdou a fortuna do marido.

– Claro que não. Ficou tudo para a cunhada e a sobrinha, que inclusive se mudaram para o casarão e passaram a viver em sua companhia. Aliás, dª Amélia estava então na sua melhor forma, com trinta e poucos anos, ainda belíssima.

– Ela não se casou de novo?

– Não. Apareceram muitos pretendentes, mas já nessa época se dizia que sua única paixão eram os gatos. Só que ainda não andava atrás deles pelas ruas. Quem fazia isso por ela era o negro Joaquim, o único empregado da casa. Coitado, viveu e morreu pelos Vasconcelos...

Jarbas tornou a encher os copos de conhaque, esperando que o advogado Matias continuasse.

– Foi depois do acidente que ela começou a vaguear pela cidade... mas era discreta. A coisa foi se acentuando mais tarde.

Jarbas franziu a testa, sem entender.

– Acidente? Mas...

– Ah, ainda não lhe falei. Acho que estou ficando um pouco tonto. – O dr. Matias deu um risinho. – O acidente de barco, em que morreram a cunhada, a sobrinha e o negro Joaquim.

Jarbas soltou uma exclamação.

– Então foi assim que...

– Amélia se tornou finalmente a única proprietária da fortuna Vasconcelos – o advogado completou. – Mas acho que teria sido bem melhor se ela continuasse sem dinheiro e cercada das pessoas que amava. Não precisaria ter canalizado sua afetividade para gatos.

Mas Jarbas não estava mais ouvindo. Como um louco quebra-cabeça, as peças começavam a se encaixar...

– Como foi esse acidente de barco, dr. Matias? O senhor se lembra?

– Claro. Foram dias e dias de suspense, com as buscas que se faziam no Paraíba... Os corpos só foram encontrados uma semana depois, bem longe de Santa Clara. As três mulheres costumavam passear todos os domingos pelo rio, num barco conduzido pelo negro Joaquim. Havia até um pequeno ancoradouro nos fundos do casarão. Parece que a embarcação virou e só dª Amélia conseguiu nadar até a margem. Ela ficou completamente fora de si e jamais relatou a ninguém o que aconteceu. Só fazia chorar e gritar, se alguém tocasse no assunto.

– Isso aconteceu logo após a morte de Carlos?

– Não, não. Foram bem uns seis ou sete anos depois.

Jarbas recostou-se à poltrona, com a cabeça fervilhando. "A verdade nem sempre é cristalina", parecia ouvir o professor Camargo dizendo. Mas então, por que o relato do advogado Matias lhe parecia de uma evidência espantosa?

– O garoto... Carlos. Como foi que Carlos se suicidou, dr. Matias?

Antes de o advogado responder, ele já sabia.

– Tomou veneno, Jarbas.

O investigador Jarbas saiu do escritório meio tonto. Quase sem perceber como, seus passos o reconduziram à livraria. Antes de entrar, dispensou o policial de plantão, dizendo-lhe que pretendia ficar ali por um bom tempo e enquanto isso o outro que aproveitasse para jantar.

Tirou o caderno de capa preta do baú e foi sentar-se diante da escrivaninha. Antes de começar a ler o diário de Carlos Vasconcelos, escrito meio século antes, Jarbas acendeu um cigarro, pensativo. Aquelas páginas amarelecidas talvez pudessem lhe dar algum indício de que sua hipótese era verdadeira, mas de que adiantaria, agora? Todas as pessoas estavam mortas e a fortuna havia evaporado. Só restava na cidade a lembrança de uma louca inofensiva que gostava de gatos... Nem pelo professor Camargo, o último a ser atingido por aquela trama diabólica, podia-se fazer alguma coisa...

Começou a ler as anotações de 1930, esforçando-se para se concentrar. O rapaz escrevia mal e apenas narrava acontecimentos corriqueiros de seu dia-a-dia. As páginas se sucediam no mesmo tom monótono, tornando-se cada vez mais confusas. Aborrecido, Jarbas desistiu, procurando o fim do diário. Foi então que aquela única página, preenchida com letra trêmula e numa clareza estarrecedora, pareceu saltar diante de seus olhos.

"Não me arrependo do que fiz, mas não posso mais continuar vivendo com esse ódio no coração. A vingança não me trouxe alívio. Não quero ir para um hospício. Só quero ter sossego. Vai ser tudo muito fácil, do mesmo jeito que foi fácil com os gatos da bruxa e com o velho. Basta misturar o veneno no leite. Ela nunca desconfiou que seus gatos sumiam por minha causa, assim como não desconfiou que fui eu quem apressou o fim de meu pai. Vou trancar este caderno no baú e jogar a chave no Paraíba."
Jarbas fechou o caderno e o colocou no bolso do sobretudo. A caminho da delegacia, onde pretendia comunicar ao delegado que o caso estava mesmo encerrado, foi pensando em como iniciar a campanha para que a Universidade de São Paulo doasse o casarão à cidade. Ali seria inaugurada a Biblioteca Municipal Júlio de Camargo, com o acervo da pequena livraria que todos os santaclarenses conheciam. Era o mínimo que podia fazer para que as duas pontas daquele fio finalmente se atassem.
Liz Mercadante,
depois de muitas voltas,
tem vivido como webgata e ciberpoeta.

e-mail: redcat@ocaixote.com.br

 

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