O RABINO

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"O rabino sentava a mais nova nos joelhos. Os meninos, muito sérios, atentos, olhos arregalados, se prostravam perto dele, com a mesma expressão que usavam na sinagoga. A gurizada o chamava Zeide, avozinho em iídiche. A mais nova, se balançando nos joelhos ria de tanta seriedade, e dizia: 'Diga, Zeidalezinho...' e ria ainda mais do diminutivo do diminutivo do diminutivo... Os diminutos são sempre tão pequenos! A eles tudo se perdoa. E eles, danados, sabem disso e... abusam. E então o rabino começava, voz lenta, gesticulando com os braços muito mais lentamente do que o desenrolar da história.

'Um homem foi à procura do rabino. Ao chegar havia lá outro homem que conversava com o sábio. O homem dizia ter cometido um pecado monstruoso, tão grave e tão profundo que a culpa e a dor não lhe permitiam mais continuar a viver. Ouvindo tal confissão, olhando os olhos marejados do outro, o arrependimento, e a necessidade de perdão, o primeiro homem disse: "Também eu sou culpado, também eu preciso e quero o perdão. Cometi muitos pecados, tantos que mal posso enumerá-los, mas tão ínfimos, tão sem importância que mal me lembro deles". O sábio ouviu a ambos e disse: "Vão ao campo, e busquem pedras no número e no tamanho de seus pecados e as tragam a mim". Os homens assim fizeram. O que havia cometido o pecado monstruoso andou muito até encontrar uma pedra vinte e três vezes maior que ele, e muitas, muitas vezes mais pesada. Esfolou-se, machucou-se, mas com muito esforço, e sozinho, tirou-a do local, e com todas as suas forças, e ainda outras que não sabia de onde vinham, levou-a ao rabino. O outro homem foi até um pequeno monte de pedregulhos, encheu uma mão deles, colocou-os em seu saco de moedas e foi ao rabino, entretido em descobrir em que isso poderia ajudá-lo. Estando os dois homens na frente do sábio este lhes disse: "Agora vão, e coloquem as pedras no mesmo lugar, e na mesma posição onde as encontraram". Árduo o trabalho do primeiro, impossível a tarefa do segundo.'

E aí o avozinhozinho se calava. A gurizada sentia-se aliviada, o suspense terminara. A mais nova, que ficara balançando nas coxas do avô, aproveitando enquanto podia o calor de suas pernas, agora sentia frio na alma."

E era assim, Tom, que eu passava minhas tardes de sábado, depois de refastelar-me com os petiscos, guloseimas, pratos e compotas de minha vó. Velas acesas, ritos, histórias. Ouvinte aflita, assídua, interessada e de sobreaviso. Sobressaltos e sobrancelhas. Soçobrando e vindo à tona, fiquei à toa.
 

Anette Lomaski

alomaski@uol.com.br

Anette Lomaski nasceu em São Paulo e ainda não morreu. 
Atende pelo nick de Noel, a Rosa.

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