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Há anos sigo as pistas de um homem. Persigo um fantasma, diz minha analista. Há pouco, quando tirei os olhos do livro que folheava fazendo hora na livraria, vi-o passar entre outras pessoas que entravam no shopping. Era ele, de cabelos meio grisalhos mas usando jaqueta jeans, como em outros tempos. Um pouco encurvado mas ainda usando óculos de aros metálicos. O shopping está vazio nesta manhã de segunda-feira e eu mesma só estou aqui porque cheguei cedo para o dentista, que tem consultório no sexto andar. Saio da livraria e caminho apressada pelo corredor que ele seguiu, rumo à escada rolante. Desta vez é ele não vou perdê-lo. Os cinemas só abrirão ao meio-dia, restaurantes e lanchonetes ainda estão vazios na praça de alimentação. Faltam quinze para as onze, a hora do dentista. Tenho algum tempo. Desta vez algo me diz que é ele mesmo, que vamos nos reencontrar, não importa tudo o que se tenha passado, que ele tenha alguém e o que tenha feito da vida em seus anos de exílio. Sempre temi encontrá-lo ao lado de outra mulher. Houve o tempo em que, pensando nisso, mentalizava uma dessas moças com o típico desleixo visual da esquerda, uniforme de militante e forçado ar de auto-suficiência. Depois veio a certeza de que ela teria cara de intelectual paulista, aquela superioridade disfarçada de simplicidade. Mais tarde, temia encontrá-lo ao lado de um mulher-de-marido, arrumadinha e arrastando dois lindos filhinhos e os chamaria de "meu amor". E podia ouvi-lo dizendo, ao me apresentar, a cada um delas: – Conhece fulana? Uma velha amiga, do tempo da barra pesada... Ou então: – Esta é fulana, minha companheira. Ou ainda: – Deixa-me apresentar-lhe fulana, minha mulher... E apontando para mim, ansioso para explicar o encontro: – Quando estive clandestino, enquanto a organização arranjava meios de me tirar do país, passei três meses escondido no apartamento dela. Depois, nunca mais nos vimos, nunca pude agradecer, mas sem a sua ajuda talvez eu tivesse caído, amargado uma tortura, talvez até morrido! – Vocês eram da mesma organização...? Como é mesmo seu nome? – perguntaria ela, intrigada. E eu, tartamuda, tentando dizer: – Ana Lúcia, codinome Amor. Era assim que me chamava, durante aqueles três meses. Amor, você trouxe os jornais? Amor, hoje tocaram a campainha com insistência, fiquei nervoso mas vi depois, pelo olho mágico, que era a vizinha de lado... Amor, me traz um sorvete à noite, quando você voltar? Chamando-me apenas assim, explicou, seria mais fácil esquecer o nome. Nunca se sabe, a gente pode ser preso, levar um pau-de-arara e acabar entregando o nome de quem nos deu cobertura. Da minha parte, parei também de tratá-lo por Xavier, codinome criado para ser usado durante a hospedagem. Adotei o "amor".
E ficávamos na cama, horas e horas, fazendo amor, lendo, conversando. Quando eu me cansava de aprender teoria política, pedia: – Amor, lê para mim de novo aquele poema do Vinicius? Eu já sabia de cor mas gostava sobretudo da segunda quadra e do último terceto do "Soneto de Devoção": "Essa mulher,
flor de melancolia Essa mulher é
um mundo – uma cadela Antes de ir para o
trabalho eu lhe preparava o café e buscava os jornais. Ligava a
secretária eletrônica para ele ouvir os recados sem ter que
atender o telefone. Se o recado fosse muito importante, me ligaria no
trabalho. O almoço, ele mesmo preparava. Tinha tempo de sobra.
Mais tarde, pegou um livro de receitas e aprendeu a fazer alguns pratos.
Às vezes fazia-me uma surpresa. Um risoto de funghi, um macarrão
ao pesto, dependia do que achasse na geladeira ou no armário. Doces,
nunca. Era diabético, podia ser tentado. Um dia achei um adoçante
culinário e com ele aprendi a fazer sobremesas "diet".
– Sei que você não quer saber de política e militância, na universidade já ficou fora do movimento estudantil. Mas sei que não é uma reacionária e está vendo que a barra pesou para nós. Por isso mesmo você é a pessoa que pode ajudar. É limpa com a policia, não desperta suspeitas, vive sozinha, não tem marido nem namorado, que eu saiba. Um companheiro nosso está muito queimado, alguém o entregou sob tortura, vai cair a qualquer hora. Precisamos tirá-lo do país. Mas até montarmos o esquema, temos que guardá-lo em lugar seguro. Pensei em você. Não precisa responder hoje. Pense e me diga amanhã. Por duas semanas no máximo. – Não preciso pensar. Alguma coisa eu posso fazer, não vivo olhando para meu umbigo. Que dia você o leva? Eu mesma fui apanhá-lo de carro num local combinado. Tinha uma mochila e nada mais. Depois arranjei roubas e objetos pessoais.
– Não deu ainda para montar o esquema, ele vai ter que sair por Mato Grosso, atravessar a fronteira com a Bolívia em Cochabamba, chegar a La Paz, onde um companheiro o receberá e seguirão juntos para Santiago do Chile. Agüenta a mão mais alguns dias. Diga-lhe que, por razões de segurança, daqui por diante você mesma será o contato, através de mim, aqui no hospital. Ninguém mais irá a seu apartamento. Explique as razões do atraso e tente lhe dar uma força. Nessa noite, quando passei a mensagem de Flávio, dei-me conta de que a qualquer hora ele poderia partir. Até então, não pensava nisso. Desde a segunda noite ele trocara o sofá da sala pela minha cama e eu, pela primeira vez, com quase 30 anos, fazia o papel de mulher, tinha um homem para tomar conta. Quando falei que teria de ficar mais tempo ali, isolado, ele apenas suspirou olhando a noite pela janela, a sombra escura das montanhas ao longe. Brinquei: "Não fique assim tão chateado, também não sou tão má companhia assim". Estávamos na cozinha, uma sopa fervia no fogão, e continuou fervendo até que aquele abraço mudo e tenso terminou. Lembrei-me de girar o botão e apagar a chama. Fomos em silêncio para o quarto, fizemos amor quase em silêncio, e o beijo dele era salgado como o medo. O meu, tinha talvez o amargo das súplicas. Entre nós, a muda certeza de que tudo seria breve e passageiro. A incerteza foi tornando o amor mais exigente, às vezes quase violento, às vezes quase doloroso. Combinamos nunca mais falar sobre a partida, que aconteceria a qualquer hora. Eu estava feliz como nunca fora, desesperada como nunca estivera, mas nada ia me roubar o que me restava. Acordar a seu lado, voltar correndo para casa depois do trabalho, comprar na rua tudo que poderia ajudá-lo a matar o tempo e a solidão. Dei para trocar os plantões noturnos sempre que podia. Esqueci os amigos, visitei muito pouco meus pais, só ia às compras, ao hospital e à banca de jornal. Todo minuto era precioso, único, não repetível. E ele, que assaltara bancos buscando dinheiro para sua revolução, que destilava ódio ao falar da ditadura e dos torturadores, que lacrimejava ao recordar o amigo de adolescência que morrera num confronto recente, que nada me prometia embora parecesse me querer tanto, para mim era suave como um santo, o próprio infinito. O mundo caiu numa tarde em que Flávio me procurou no refeitório dos médicos e assim que ficamos sozinhos, avisou: – Vamos buscá-lo de madrugada. Ajude a arrumar tudo, leve este dinheiro para o que for preciso. O mínimo de bagagem. Diga-lhe para destruir os atuais documentos, ele receberá outros de quem for buscá-lo. Procure não ver esta pessoa, para o bem de todos. – Não dá para adiar um dia? – balbuciei sem esconder o tremor. – Está louca? Você não sabe o que é montar uma operação destas, pessoas envolvidas, tudo cronometrado... Qual é o problema? Achei que ele desconfiava, dei uma desculpa: – Estes dias ele não andou bem, é diabético, andou com a glicose alta. Mas nada que impeça a viagem. Nessa noite não dormimos, nem fizemos amor. Passamos abraçados, ouvindo a respiração do outro. Quando não pude mais, explodi, chorei quase em voz alta, debruçada em seu peito, agarrada a ele como a uma rocha que ameaçasse rolar. Que peso eu tinha para segurar aquela história? A campainha tocou às cinco e meia, ficamos abraçados ali ao pé da cama até que tocou de novo. Voltei para a cama para chorar sobre o travesseiro. Ele puxaria a porta. Quando me levantei, depois das nove, vi que chovera e eu tinha a alma úmida. Trabalhei, tomei um antidepressivo, atendi dezenas de pacientes. Duas semanas depois, mudei de apartamento. Era 18 de março de 1971.
Lá está ele, comprando discos numa loja. Entro também,
vejo que está na prateleira de clássicos. Aproximo-me e
constato o engano. Eu estava louca, como fui pensar que poderia ser ele?
Muito mais baixo, muito mais claro, muito mais velho, apesar dos anos
que já se passaram. Mas ele virá, com certeza está
no Brasil. Na véspera da partida ainda afirmou não saber
quanto tempo agüentaria viver no exílio. Na volta, deve ter
pensado em me procurar, mas como, se nunca soube meu nome nem meu endereço?
Fomos estranhos porém íntimos. Eu também não
sei por quanto tempo vou procurá-lo. Talvez por toda a vida, não
importa.
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