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Na sala clara o gato dorme. Pousa a cabeça entre as patas, ressona. Contra a luz da janela seu corpo é uma sombra parda de pêlos fofos. A manhã indecisa infiltra-se pelas venezianas e na nossa vida, suave. Será um dia como outros nesta praia quase deserta de ares da cidade. Quase deserta. Levanto-me, escancaro a cortina, sondo o céu azul, desenhos abstratos. Tomo café, saio, chapéu, sandálias, short, camiseta estampada, um livro. Vou me sentar à beira-mar, no banco de sempre, contemplando a paisagem que não muda. Paisagem estática que se contrapõe ao movimento das ondas provocantes. Gosto do vaivém belicoso. É a vida tentando quebrar a monotonia deste recanto de férias, oscilando entre o fim da primavera e o começo do verão. Neste intermezzo de estação e ambivalências, ponho-me a pensar em Jerome, no dia em que nos separamos. Dia nada especial para a natureza. Para nós o rompimento definitivo dos fios esgarçados da nossa relação, insustentável. Foi assim como a última distensão do elástico que já perdeu a flexibilidade, estala ossos que não tem, geme, arrebenta nervos, não suporta mais a tensão. Que não fosse o elástico, seria uma corda de embira, rota, como aquela que bamboleia no cais obsoleto do King Bay. Ambos sem serventia. Na essência e no contexto. Não sei por que estou aqui a buscar imagens, símbolos, metáforas, que em nada me ajudam na cura dos ferimentos da alma. Talvez esteja tentando visualizar sentimentos, talvez ao lhes dar aparência material, seja mais fácil lidar com a dor. Vê só? Os artifícios de que nos valemos na hora em que nos vemos desamparados. E por que não? Tudo é válido quando se tem o vácuo deixado pelo amor que se supunha eterno. Se bem que conferir eternidade a pactos humanos foi duma ingenuidade de querubim. Lábios roxos, bochechudos, cabelos encaracolados de inocência. Mas Jerome me dava essa sensação. Mesmo quando mentia. Era demais a pureza de propósitos. De arrepiar a pele do mais insensível mortal. Ou a pele sedosa de violeta entreaberta, ainda virgem de abelhas. Ou a do botão fechado de lírio-do-campo, trêmulo de pudor.

Jerome era belo e consistente. Na mentira? Tenho dificuldades em rotular suas ações. Hoje não sei se era falsidade premeditada. Porque ele não parecia um ator representando um personagem. Como nos anfiteatros da Grécia antiga, a máscara que trazia pregada na cara, era ele. Em carne e osso. Ele era o personagem. Que amava, sofria, gargalhava, conforme as experiências vivenciadas. Ele devia acreditar no que fazia. Por isso a candidez. Mentira sincera, existe isso? Se não existe, Jerome inventou o gênero. Ele podia criar acontecimentos e emoções com tamanha engenhosidade e realismo que o espectador ficava fascinado. Ele era todo sedução e carisma. Seus olhos verdes brilhavam de esmeraldas, a expressão serenava, os gestos davam vida às palavras. Promessas, declarações de amor, planos, trabalho, a família, colegas, viagens, aventuras da adolescência. Tudo. Uma certa graça o envolvia, ele se tornava quase translúcido, angelical mesmo, as histórias fluíam leves. De uma leveza de asas de borboletas, pirilampos, anjos peraltas brincando de esconde-esconde entre constelações invisíveis.

Falando de anjos.

Eu os encontrei num desfile de Halloween na Washington Square. Um grupo de cinco rapazes e duas moças, entre eles, Jerome. Longas batas de cetim salpicadas de estrelas prateadas, asas compridas, penas macias de garça, auréola de brocado fosforescente. Eu e duas amigas, feiticeiras negras, rostos verdes, chapéus pontudos, unhas postiças, vassouras de palha, dançando ao redor de fogueiras imaginárias. Começamos a conversar, separamo-nos do restante do grupo, varamos a noite juntos percorrendo os bares lotados e barulhentos de Manhattan. Divertimo-nos enormemente. Amanheci no apartamento dele, na Marks Place, no East Village. Minha fantasia de bruxa dormia no chão, debaixo das asas e vestes do anjo nu, que agora me abraçava entre almofadões indianos. Ele tinha a cara verde, eu estava coroada de estrelas. Fizemos amor repetidas vezes. O anjo revelou-se um fauno insaciável, eu larguei a couraça de bruxa malvada e me entreguei aos prazeres do paraíso. Conservei as unhas afiadas para arranhar a pele acetinada do anjo que por sua vez cravava dentes e línguas pelos meus seios, ventre, clitóris. Tesão, gemidos, sussurros. O corpo atlético de Jerome, inventivas sexuais, orgasmos nunca sentidos. Eu disse, ele também. Nenhuma mulher como eu. Homem nenhum como ele. Não mais nos separamos a partir daquele momento. Nossa paixão, como fogo sagrado, nos envolvia mais que o corpo, a alma. Tornamo-nos amantes, parceiros, cúmplices, num pacto secreto de felicidade infinita. Ah, como foram maravilhosos os dias do East Village...

Dias longínquos e rarefeitos no tempo. Como a névoa que vem surgindo no horizonte desta praia quase deserta. Quase deserta dos ares da cidade. Não das lembranças.

Jerome nasceu em New Orleans. Quando tinha dois anos, a família se mudou para a Califórnia. Tinha uma única irmã de nome Geraldine, antropóloga, trabalhando num projeto no Quênia. Os pais, Gregory e Violet Porter, eram ricos proprietários de grandes fazendas, gados, plantações. Ele estudara sociologia em Berkeley mas em pouco tempo descobriu que sua vocação era outra. Queria ser fotógrafo. Interessara-se por fotografia desde os sete anos, quando ganhara a primeira câmara, presente de aniversário do avô Barnard. Tinha caixas e caixas de fotografias acumuladas durante anos. Viera para Nova York, matriculara-se na Escola de Artes Visuais e pouco depois trabalhava como freelance no Village Voice e Daily News. Nunca passara apertos financeiros. Se não aparecia trabalho, a família o ajudava prontamente. Assim ele vinha vivendo há dois anos, com um certo conforto, não podia se queixar. Mas o seu sonho mesmo era fazer fotografias de arte, ter o próprio estúdio, ser conhecido internacionalmente. Para isso vinha se esforçando enormemente. Estudava muito, não perdia exposições de fotógrafos famosos nas galerias do Soho, procurava estar inteirado de todos os movimentos e novidades nesse campo. Freqüentava workshops e estava sempre fotografando. Usava câmaras sofisticadas, tentando obter efeitos originais e surpreendentes. Vou conseguir o que quero, disse-me certa vez, acredito no meu sonho. Eu não duvidei.

Tudo isso ele me contou.

Averiguar nem se eu quisesse.

Andava muito ocupada com a minha tese de mestrado em Literatura na NYU, trabalhava trinta horas por semana na Barnes & Noble, fazia economias pra poder pagar as contas no fim do mês: aluguel, luz, telefone etc. Dividia um sala e quarto com Marion, uma aspirante a atriz, outra que tinha de se desdobrar para se equilibrar nas finanças. Vim duma família classe média, estudei às custas de bolsas e empréstimos bancários, desde cedo venho lutando pra conseguir meu ideal: ser escritora. Eu também tenho um sonho. Jerome entendeu.

Foi o que eu lhe contei.

Pura e simples, a verdade.

Depois me contaram. Outra versão do que ele havia me contado. Os pais de Jerome, simples funcionários do City Hall, moravam em Brooklyn, numa casa modesta. Era filho único. Geraldine, uma fotógrafa que trabalhava para a National Geographic Magazine, a amante mais velha, bem-sucedida que o sustentava. Ele passava os dias perambulando por Manhattan, em cinemas, teatros, barzinhos, enquanto ela viajava a trabalho pela Europa. As fotografias maravilhosas que havia me mostrado, como sendo tiradas por ele, mentira. Eram de Geraldine Jordan.

Tudo isso me foi dito pelo seu amigo Michael.

Um dos anjos do Halloween.

E, por coincidência, na Washington Square. Quando um dia nos cruzamos, casualmente. Eu voltava da Barnes & Noble, ele da NYU onde estudava Direito. Relembramos o desfile, a conversa recaiu sobre Jerome e ele desfiou a história, espontâneo e natural, os olhos plácidos de cordeiro, fitando-me sem piscar. Escutei-o em silêncio. Despedi-me, estou com pressa, tenho um compromisso. Nem sei se notou meu desconcerto ou o desconcerto das águas em que eu me debatia, esquecida de nadar. Bye-bye. See you soon. Michael ficou no meio da praça, penso que boquiaberto, não olhei pra trás. Eu me fui na direção da Fifth Avenue, enxergando nada que não fosse o desespero íntimo. Olhos secos, de lágrimas nem notícias. De vez em quando apenas um anjo desnudo cruzava minha retina, gargalhando. Apressava o passo cego, meus pés e meu coração conheciam o único caminho que naquela hora eu deveria tomar. O caminho de casa. Cheguei ao meu apartamento do Chelsea, tremendo de frio, em pleno verão.

A noite em claro, a noite clara como esta sala clara.

O dia amanhecendo. O dia da confrontação.

Manhã nada indecisa. Confrontei-o.

Jerome me olhou como se não soubesse do que eu estava falando. Escutou em silêncio, mão no queixo, sereno. Quando terminei, um sorriso brando brotava em seus lábios sensuais. Aquele tipo de sorriso complacente, misto de ironia e candura de quem se coloca numa posição superior em qualquer controvérsia. Segurou minhas mãos, beijou-as, você está equivocada, meu amor. Michael estaria mentindo? Não exatamente. Porque é assim que ele desenvolve seu raciocínio para compor minha história. Trabalhando com dados imaginários, constrói uma fábula que pensa corresponder à realidade dos fatos. E, de tanto recontá-la, angariou uma legião de adeptos que acreditam na veracidade da narrativa. A repetição alegórica é um mantra poderoso. Se você perguntar a qualquer um dos meus amigos, eles vão confirmar a palavra de Michael. Todos eles me vêm sob a mesma ótica. Acontece que não participo desse enredo criado à minha revelia. Sou construtor da minha própria fábula. Posiciono-me no mundo da maneira que desejo me ver e agir e sonhar. Sinto-me livre para criar e transformar a trajetória do meu destino. O que lhe contei é a minha verdade. Que é a única. Porque somente eu, a semente-matriz da fábula, pode conhecê-la. O resto não passa de projeção alheia.

Assim ele se defendeu. Poeticamente.

Ambiguamente. Dentro da sua estranha filosofia, olhando-me altivo. Belo e consistente...

Não fosse o telefonema de Geraldine, eu estaria até hoje, quem sabe? Naquele estado indefinido, suspensa entre a sedução de uma verdade inventada e a realidade conhecida por todos os conhecidos de Jerome. Porque eu não tratei de investigar nada. Não sei se por falta de ânimo ou de coragem. Talvez não quisesse encarar as asperezas do avesso da fábula. Talvez porque quisesse prolongar o quanto possível uma situação que, embora eu suspeitasse fictícia, proporcionava-me tanta felicidade. Recolhi-me. Aliás, recolhemo-nos. No refúgio de nossa privacidade, isolados. Paredes de aço, à prova de fogo, raio, bala, intrigas. Ali estaríamos, segundo Jerome, a salvo da projeção alheia.

Estratégia mais do que ingênua, fugaz.

O telefonema de Geraldine Jordan conseguiu abrir crateras na superfície da pseudo fortaleza. Com uma facilidade de estarrecer. Caiu como uma granada. Que não chegou a explodir porque a intenção era apenas me prevenir do perigo. Largue o meu homem senão... Seu homem? Aí ouvi o relato completo do caso de amor deles, que já durava três anos. Dessa vez eu compreendi.

A mensagem era clara como a sala clara.

Onde não cabe mais o verbo ressonar.

O gato acorda, espreguiça-se, arregala os olhos amarelos, contempla seu reflexo na vidraça, assusta-se. Salta entre as poltronas, pêlo ouriçado, atento. Enrosca-se na cortina, espreita o “outro”, no qual não se reconhece. As orelhas, par de antenas sensíveis, a captar o possível inimigo, retesadas. Vigilância e astúcia. Imóvel a mirar a imagem daquele que nunca lhe foi mostrado como sendo ele – o gato pardo que em si não percebe. Como se precaver do choque da projeção de si mesmo? Nem os humanos.

Cena pré-fabricada. Escape que engendro pra cortar o fio do que ainda me conecta a um estado eletrizante. Do qual eu não soube nem quis escapar no instante em que reconheci a necessidade do pulo. Como posso antecipar os movimentos e reações do felino alerta, se a eles me desassemelho na lassidão e destino?

Se ainda continuo na praia quase deserta, desguarnecida? Ah, os vôos da imaginação... A gaivota que vai sumindo no horizonte me lembra o anjo de outrora. Qual será seu disfarce no próximo Halloween? Uma ventania sopra inesperadamente, o céu se turva, parece que vai chover. Na praia, o vento em redemunhos assovia sons estridentes. Ao longe, entre névoas de areia, vêm surgindo vultos indistintos que aos poucos vão adquirindo formas e movimentos. São os vampiros, freiras, garçonetes, demônios, palhaços, anjos, príncipes, pierrôs, arlequins da Washington Square, dançando frenéticos. Cantam, gritam, gargalham, loucos de alegria, como na noite antiga em que participei do desfile. A atmosfera é igual na aparência e sortilégio. Onde está o grupo de feiticeiras? De repente, no meio da multidão delirante, uma mulher de negro, cara verde, chapéu pontudo, me acena. Estremeço. Tenho a sensação de estar diante dum imenso espelho observando meu reflexo vivo que continua a atuar na outra margem do tempo. Preciso desfazer a conexão, se quero alcançar a serenidade. Desvio o olhar para o vaivém das ondas, o céu escuro, a praia quase deserta. A chuva começa a cair. Levanto-me do banco, pego a bolsa e o livro que não li, vou me embora do passado.

Um barco se solta do cais.

As amarras se dissolvem entre seixos e algas.

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Tereza Albues

Como uma cigana, sou inquieta de nascença. Minha mãe me pariu de pé, em Cuiabá, tanta pressa tinha eu de aterrissar no planeta. Muito cedo bati asas para o Rio de Janeiro, San Francisco, e, hoje, New York.  Amanhã, quem sabe? Meu aprendizado pelo mundo afora tem sido muito louco e produtivo. Tenho quatro romances publicados no Brasil:  Pedra Canga, Chapada da Palma Roxa, A Travessia dos Sempre Vivos e O Berro do Cordeiro em Nova York. Meu quinto romance, A Dança do Jaguar, acaba de ser lançado no Salão do Livro em Paris (http://www.00h00.com/po/). Tenho outros inéditos, à espera de editor. E, pra descansar, venho escrevendo contos, de fôlego curto, como este. Que tal?
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Albuesny@aol.com