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O silêncio da ilha, ao escurecer, não é cortado abruptamente. Quase imperceptível, o som vem surgindo como um leve sussurro dos galhos de árvores, ao balanço do vento morno. Não é o volume do som; é o prenúncio do tempo de duração que traz arrepios. A sensação de impotência. Nada vai estancar a sinfonia obsessiva; em breve o ar será tomado pelos estribilhos irritantes; o ar e as ruas, o corpo, o ouvido, a mente, a vida dos habitantes da ilha. A sinfonia começa com acordes delicados, em diversos pontos; a desconexão das notas dá a falsa idéia de que tudo não passa de ruídos isolados; ruídos de inofensivos insetos espalhados pela folhagem. O verde da ilha é abundante, espesso, adocicado. Natural que atraia inúmeros e variados espécimes. Seria natural, não fossem os espécimes, da mesma família. São. Nesta hora. E parecem estar unidos por um minúsculo eletrodo localizado no extremo das suas antenas sensíveis. Que ao primeiro sinal, aciona um movimento sincrônico, comandado por maestros invisíveis; a música se espalha como ondas mansas pela areia macia; cresce e se transforma em vagas aflitas, os prováveis náufragos que se acautelem. Não se sabe se por instinto, ou se governadas por uma inteligência superior, as cigarras são duma disciplina de fazer inveja a muitos monges em anos de clausura. Com precisão e cadência, assestam as baterias sonoras, como poucas academias militares saberiam precisar. A cronometria da orquestra é impecável. Nenhuma falha ou intervalo ocioso; conspiração de Primeiro Mundo. Já é noite. Ninguém dorme. O zumbido estridente pretende continuar ininterrupto até de madrugada. Tortura chinesa, na repetição da melodia, para os homens. Japonesa, pelo arakiri vocal, para as cigarras. Muitas amanhecerão mortas. Nas calçadas, seus corpos expostos ao sol; cinzentos, verde-escuros, cascudos, horrendos; os corpos; carregados ou não pelas formigas, varridos pelos empregados da limpeza pública, pelas donas de casa, alarmadas com a quantidade. Outros continuam grudados nas árvores; o pulmão seco, patas secas, asas encolhidas. Alguns abraçados ou agarrados às costas dos outros. Morreram copulando. Orgasmo mortal, o das cigarras. Extinguem-se du-ran-te, o que quer que estejam fazendo; o importante é não parar de exercitar as membranas musicais. À estranha compulsão, nada se interpõe. A forma de morrer parece obedecer a um pathos inevitável. Já nascem sabendo como vão terminar. Os machos, especialmente, que trazem, de nascença, uma bolsa musical no baixo ventre. Aceitam o destino trágico e a eles se entregam com a volúpia de heróis gregos. Nem todos. Ouvi dizer que num certo pomar italiano, várias cigarras se recusaram a entrar na sinfonia; fizeram greve de voz, protestaram. Foram cercadas e golpeadas na garganta por um esquadrão de machos enfurecidos; minutos depois os assassinos, lambendo as patas, se juntaram à maioria e foram morrer de tanto cantar. Conforme o costume herdado dos ancestrais ou a sina atávica, sem qualquer explanação lógica.

Uma única cigarra escapou ao massacre da Ilha de Capri. E veio pousar na Ilha que ela não sabia se chamar das Cigarras. Pousou, peito arfante, o vôo longo, cansativo; mas os pulmões resistiram bem à travessia dos mares; os pulmões das cigarras são possantes; o que as matam, já se sabe, é a compulsão do canto. E Hunno, como ficou conhecida a cigarra exilada, tinha vontade férrea e determinação de propósitos. Morreria sim, um dia; mas de morte natural; esquecendo-se de que, entre as cigarras, a morte natural era exatamente aquela da qual fugia. O fim comum dos seres de sua espécie. Mas Hunno não era uma cigarra comum. Por isso a rebelião, que culminou em fuga e exílio, o que lhe daria direito a asilo político, se humana fosse, a figura do fugitivo. Perseguido e ameaçado de morte no seu país, tinha todo o direito de invocar a proteção de um país estrangeiro. Tinha. Só que, a ilha em que pousou, inadvertidamente, não pertencia a nenhum país democrático, que respeita os direitos humanos, muito menos o direito de cigarras rebeldes, que têm a ousadia de ir contra a tradição secular dos Cicadídeos. A Ilha das Cigarras pertencia às cigarras. Essa legião indesejável que infestava a ilha, anualmente; uma legião com poderes ilimitados. Os humanos viviam sob o seu jugo. Quanto ao silêncio noturno. Um jugo passageiro, como a vida das cigarras. No verão, apenas, é verdade, mas de domínio absoluto. O pesadelo daquele som esganiçado, constantemente a ferir os ouvidos dos moradores, seria capaz de desafiar a paciência milenar dos monges do Tibete. E Hunno chegou, exausto, desnorteado, em pleno verão; e pousou, aliviado, na Ilha que não sabia ser das Cigarras. Era.

E a patrulha ideológica, que viceja

às claras ou às sombras

também nas sociedades

animais

ou

vegetais

Farejaria a pista

E em breve marcharia à sua procura.

Uma cigarra viajada, com idéias revolucionárias, poderia representar uma grave ameaça à Ordem e à Moral daquela comunidade. Desconheciam o treinamento de Hunno, mas presumiam que deveria ter tido mentores excepcionais de calibre internacional. Sabe-se lá de que táticas dispunha o subversivo? Tinha de ser eliminado antes que se infiltrasse entre as pacatas cigarras locais e as incitasse à desobediência. Morrer cantando é nosso lema, glória e tradição!, bradaram os zelosos guardiões. E o Maestro (ou qual fosse o codinome do líder dos Cicadídeos), ordenou a caçada e o extermínio do vil traidor. Tarde demais. O ISRUCC (Inteligência Secreta do Reino Unido das Cigarras Conservadoras) informou que em 48 horas o mal havia se alastrado, muitas cigarras mostravam sinais inequívocos de contágio. Diante do quadro alarmante, decidiram mudar o esquema da Operação Caçada. A ordem inicial foi revogada, por unanimidade.

E a falange alada, partiu com a missão

de trazer Hunno – VIVO!

Politicamente, o assassinato não seria a melhor solução. Segundo os informantes, a notícia de sua chegada e da atuação no levante de Capri, já havia se espalhado pela Ilha inteira; formavam-se comitês de apoio, assembléias populares, crescia o número de simpatizantes; àquela altura, transformá-lo em mártir seria um erro de estratégia. O plano era prendê-lo e obrigá-lo a cantar até morrer, como qualquer cigarra comum. Mas Hunno não era uma cigarra comum. Considerava ignóbil procurar um fim que não desejava. Não acreditava em destino cego e se recusava a participar dum ritual que via claramente como suicídio em massa, semelhante à tragédia liderada por John Jones, nas Guianas. Não acreditava, não estava disposto, e não executaria a performance exigida por uma lei absurda. Fosse ela da Natureza, de Deus, ou dos Homens. Falou grosso, batendo as patinhas na areia molhada pela baba de seus algozes. Decidiram executá-lo ali mesmo, na praia, em plena manhã de sol. O despudor dos tiranos. Também não havia testemunhas... Moscas, mosquitos, caranquejos vadios não contavam. Nem perceberam que do alto das dunas, um pintor solitário acompanhava a cena; em rápidos movimentos, traços firmes, passou para a tela o instante da execução. Tendo perpetuado o tempo e a ação na obra, desmontou o cavalete, enfiou tintas e pincéis na sacola de couro, saiu apressado. Carregando o quadro como se fosse um estandarte sagrado, atravessou a Ilha, solene. Enquanto isso os carrascos lançavam à maré alta o corpo daquele que eles não desejavam fosse mártir. A seguir, partiram em marcha lenta, zumbindo em coro: Que os tubarões devorem, o proscrito! Que os tubarões devorem, o proscrito! Não devoraram.

A maré baixou, o corpo de Hunno reapareceu,

todo prateado,

e foi visto por todas as cigarras da Ilha.

Muitas guardaram silêncio naquela noite.

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Tereza Albues

Como uma cigana, sou inquieta de nascença. Minha mãe me pariu de pé, em Cuiabá, tanta pressa tinha eu de aterrissar no planeta. Muito cedo bati asas para o Rio de Janeiro, San Francisco, e, hoje, New York.  Amanhã, quem sabe? Meu aprendizado pelo mundo afora tem sido muito louco e produtivo. Tenho quatro romances publicados no Brasil:  Pedra Canga, Chapada da Palma Roxa, A Travessia dos Sempre Vivos e O Berro do Cordeiro em Nova York. Meu quinto romance, A Dança do Jaguar, acaba de ser lançado no Salão do Livro em Paris (http://www.00h00.com/po/). Tenho outros inéditos, à espera de editor. E, pra descansar, venho escrevendo contos, de fôlego curto, como este. Que tal?
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Albuesny@aol.com