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| por Tereza Cruvinel
(O mar de Brasília
é o céu.
Lúcio Costa) Falar mal de Brasilia é fácil. Difícil, como disse Paulo Mendes Campos sobre Belo Horizonte, é amar Brasilia. Mais ainda, defendê-la dos estigmas e preconceitos que passaram a persegui-la desde que a vaga profecia constitucional começou a materializar-se no Planalto inóspito: O mar está tão longe, o mar, a praia e o saboroso ócio dos calçadões do Brasil costeiro. Faltam esquinas e botequins e o bulício peculiar que emana deles. O clima é seco e as almas frias. Cabeça, tronco e rodas. Sobram carros, falta gente a caminhar nas ruas. A cultura não vinga, assim como algumas espécies. Tudo é poder, e fora dele não há salvação. Vive-se dele, por ele e para ele... A lista dos defeitos de Brasilia - reais ou ficcionais - é interminável, consumiria bytes, laudas ou horas de conversa, principalmente lá, nas duas metrópoles que se têm como umbigo cultural e cérebro econômico do país. O Rio é uma cidade socialmente carcomida pelas piores pragas urbanas mas seria herético e preconceituoso chamá-la de balneário decadente. São Paulo não pode parar, não pára mesmo, a vida lá é uma convulsão em todos os sentidos. Lá surgiram nossas piores pragas políticas e lá se moldou um dos capitalismos mais selvagens da face da terra. Mas seria tolo e preconceituoso negar a contribuição civilizatória dos paulistas. Já falar mal de Brasilia é simples e inconsequente, comprazem-se nisso os humoristas e os saudosistas do tempo em que os brasileiros viviam como caranguejos agarrados à costa. Há ainda os que falam por falar, ou porque ouviram falar, assim como falamos do solo arenoso da lua, onde nunca pisamos. A conversa tem um resumo, e nele há resquícios da resistência udenista à iniciativa de JK: nesta cidade que custou os olhos à nação, todos se corrompem e se locupletam, todos são vassalos da ambição e sugam a teta do Estado, uns se empanturram, outros se contentam com migalhas de poder. E os que nem isso alcançam, afogam-se na vaidade e no arrivismo. E como nós, brasilienses, natos ou adotivos, nunca respondemos ou protestamos, o estigma cresce e floresce. Quando diz que é de Brasilia, o mais promissor artista é repelido pelas vanguardas nacionais, que hão de apontar algum provincianismo em seu trabalho. Foram os jornalistas de Brasilia que fizeram a maior devassa nas entranhas da corrupção (com tentáculos pelo país inteiro), mas são eles acusados de intimismo com o poder por seus colegas das duas metrópoles. Se um empresário aqui prospera, certamente roubou, entrou em alguma maracutaia. Aquela parente que se mudou para Brasília arranjou um bom emprego? Com certeza tornou-se amante de algum deputado ou pessoa influente. Aquele amigo que não se acertava na vida então se ajeitou em Brasilia? Deve ter posto os princípios de lado para entrar no espírito da cidade. Por ai vai. Não é mesmo fácil amar Brasilia, a distante, num pais que não se orgulha da epopeia que foi construí-la num cerrado onde só os lobos uivavam na noite. Que mal avalia o conjunto de obras do arquiteto que, juntamente com Pelé, foi a personalidade que mais projetou o Brasil no século que se acabou agora. Este é um país que prefere generalizar a compreender, que rejeita a diferença ao invés de apreciá-la. Mas apesar de todos os estigmas, as levas de migrantes tardios continuam a chegar, forçando uma expansão desordenada da cidade ante o olho coniventemente fechado das autoridades. E nós, os que aqui crescemos ou nascemos, que mais cedo ou mais tarde nos comprometemos com a cidade, fazemos o silêncio obsequioso dos complexados diante deste outro desatino. Assim
como a lista de defeitos dos detratores é interminável,
longa seria também a das virtudes de Brasilia, raramente apresentada
por seus defensores. Deveríamos começar dizendo que isso
aqui não é uma cidadela do poder. Que aqui vivem dois
milhões de almas, e uma ínfima fração
efetivamente é poder. E sendo este país aparentemente
uma Poderíamos
dizer que o metro quadrado de verde, em área urbanizada, aqui
supera o de qualquer cidade do mundo e que o padrão de nossa
educação pública é dos melhores. Que em
alguns bairros ainda se houve Falta aos brasilienses o exercício da auto-estima, a afirmação permanente de um modo de viver, que não é o dos baianos nem o dos paulistas, muito menos o dos cariocas. Mas é o modo de viver em Brasilia, produto da experiência e de cultura em formação, resultado também de uma história que precisa começar a ser contada. Precisam saber os outros o que foi plantar uma cidade no deserto em apenas 3 anos e dez meses. Precisamos falar do frio e a devastação do início, recordar a labuta constante no imenso canteiro de obras, onde alguns perderam a vida, mesmo sem ter morrido. De como surgiram avenidas e palácios onde antes nada havia, senão o vento, o cerrado, os lobos e as cobras. E a poeira, a poeira vermelha e fina, que o vento erguia em redemoinhos, muitos ao mesmo tempo, para depois deixa-la cair sobre os barracões, pousar sobre as plantas dos arquitetos e engenheiros, entrar pelas janelas, pousar sobre as camas e até sobre a comida no fogo. Contar as nostalgias nordestinas em torno de fogueiras, muito antes da chegada da luz. Os que viviam na costa torciam o nariz mas o que passaram a vida nos cafundós atendiam ao chamado de uma vaga esperança, e continuavam chegado. Um dia badalaram os mesmos sinos que anunciaram a morte de Tirandentes. Era inauguração, tendo ao centro a cruz que os homens de Cabral ergueram em Porto Seguro, emprestada pela sé de Braga. Cumpriu-se o rito, entre casacas e vestidos longos, mas o fazer prosseguiria, o engenho continuou moendo vidas e histórias. Quarenta anos se passaram, a civilização dos caranguejos entrou pelo centro-oeste, rasgou a Amazônia, ganhou o Norte esquecido. O Brasil é outro, muito mais dono de si, apesar de o entregarem tanto. Sem
História, e principalmente sem quem lhe declare amor, Brasilia
continuará sendo a distante, espoliada de seu sentido histórico,
a cidadela de poder e despudor imaginada por seus detratores.
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