As últimas confidências de JK para sua melhor amiga

 

Fico recordando aquela noite do dia 18, quatro dias antes de sua morte. Jantamos na casa do Carlos Murilo e fomos levar o Olavo Drummond ao Hotel Eron. Por insistência do Olavo, subimos ao bar, só nós três, o Carlos Murilo voltou para casa. Batemos um longo papo, até às três horas da manhã.

Quando ele e o Olavo foram me deixar em casa, Juscelino cobrou a resposta da carta que me havia mandado, no dia seguinte ao boato de sua morte, escrita no avião que o levava a Belo Horizonte, onde ele lia um conto meu que havia sido publicado no Correio Braziliense. Eu respondi: aquela carta é bonita demais, vou ter que aguardar a inspiração para respondê-la à altura. Em seguida, prometi: Na próxima semana, responderei. Mas, no domingo, ele morreu. Após o seu enterro, já de madrugada, decidi cumprir a promessa que lhe havia feito e escrevi a carta.

 

Minha querida Vera,


Não faço outra coisa senão ler. Leio coisas boas e más, mas não posso parar. Ultimamente procurei penetrar num mundo mais romântico para fugir da pressão inevitável dos artigos sobre o "produto bruto" , balanço de pagamentos e taxas de inflação.

E passei a leituras que me encorajavam um pouco mais. Há sempre um período de fossa para todo mundo. Por quê fugiria eu desta agressão?
Confesso-lhe, agora, no silêncio ruidoso do avião que me leva a Belo Horizonte que tomei um choque enorme quando li o seu
A solidão dos outros.

Li com vagar. pensando, raciocinando.

Em primeiro lugar, a beleza de sua linguagem despretensiosa. Para escrever no estilo que é, hoje, o seu padrão é preciso ter cultura, conhecimento a língua e uma inteligência doida.

Há quase um mês que estou na "minha solidão da Fazenda J.K.".
Os que convivem comigo, os que lá trabalham são cegos, surdos e mudos. Constituem um mundo apagado.

Recolho-me à rede da varanda, afino os ouvidos pelo silêncio das quebradas e leio. Mas estava lendo coisas técnicas porque a tanto me impunha a necessidade de aprender a conhecer a administração das minhas pobres terras.

Quando a deixei no aeroporto, fui obrigado a perder um quarto de hora de precioso tempo ouvindo cumprimentos e gentilezas.

O jornal queimava-me a mão. Abri-o. Devorei-o. Deslumbrei-me. O seu estilo singelo e maravilhoso, os temas de espírito colocados com rara maestria, o conhecimento dos tormentos da alma, as cartas finais e os comentários sobre a companheira de quarto me deixaram parado, olhando para for a, vendo o horizonte correr, veloz, sem perceber que já estava no fim da viagem.

A comparação do mundo dos angustiados do hospital com as angústias dos que vivem cá for a que coisa perfeita, sem paralelo!
Não quis adiar estas poucas palavras, antes que o avião me deixasse na cidade em que vivi a minha mocidade. "Olhei para o alto e ainda vi estrelas".

São as que me animaram outrora e que ainda me podem trazer algum alívio.

Muito obrigada, minha querida Vera. Nem uma noite no Céu me daria o prazer da leitura que terminei agora.

Muitos e muitos abraços.

J.K.
8-8-76 - avião

 

Ah, ia me esquecendo de contar: tinha índio também, uma porção de índios. Na realidade, tinha de tudo...

 

  Juscelino, meu amigo querido

Você nem me deu tempo de responder à sua carta. Na quinta-feira tive um trabalho enorme de rever e corrigir meus contos, para remetê-los a você. Quando telefonei para a Déa, você já havia seguido para São Paulo, no avião das nove horas.

No domingo, à noite, o Carlos Murilo ligou-me, aflito, para dizer que estava correndo o boato, outra vez, de sua morte. Fiquei irritadíssima com a falta de imaginação dos boateiros. mas resolvi ir para a casa dele, com uma aflição menor do que da vez anterior.

Os telefonemas foram nos assustando. Ficava me lembrando da sua expressão naquela noite de sábado, na fazenda, e do que você havia dito. E pensava: vai ser tudo igualzinho. Eu vou contar-lhe as aflições da Sarah, das filhas, dos amigos, e ele vai sorrir meio triste, com pena de ter causado tanto dano às criaturas que ama. Sem nenhuma culpa. Você não se habituara a causar danos sem culpa.

Sempre as pessoas que o amam sofreram sem que você tivesse, realmente, a intenção de feri-las. Sofreram as injustiças que lhe fizeram, a sua ausência durante longos anos no exílio, as injúrias, as ingratidões todas. Você já nos devia saber acostumados a esse tipo de mágoa. Mas sofria assim mesmo, mais com pena da gente do que de você.

Mas… não é que desta vez foi verdade? Não é que, ainda sem culpa, você nos deixou, a todos, arrasados de sofrimento?
Não que o pretendêssemos eterno. Morrer, todo mundo morre, mas debaixo de uma carreta? Não dava para você morrer de avião, com as milhares de horas de vôo que você acumulava? Daria para tirar o brevê, só pelo tempo passado no ar. Não podia, pelo menos, morrer de enfarte? Tinha que ser nessa violência? Tudo seu foi assim tão violento, com tanta força, com tanto entusiasmo! Não dava para diminuir a barra um pouquinho neste final?

Olhe, você não imagina, depois, o que aconteceu. Um terremoto não teria feito tanto estrago. O seu Brasil ficou estarrecido. A tristeza já não era privilégio de seus amigos. na geral. A alegria saiu do rosto das pessoas. Os suspiros e as lágrimas passaram a ser a mensagem de um desespero. Ninguém se falava, só abraços e soluços, e mágoas muitas.

No dia seguinte, o seu corpo chegou à Brasília, todo coberto com a bandeira do Brasil. O aeroporto estava lotado. Os táxis carregavam as pessoas de graça, todos com um pano preto, significando luto. Os motoristas sabiam que, no final da tarde, teriam de prestar contas aos seus patrões dos quilômetros percorridos. Mas ninguém estava pensando nos momentos seguintes. Os momentos seguintes sempre existiram. Um líder enrolado numa bandeira é que é raro.

Os cordões de isolamento eram enormes. Uma senhora gorda, simpática, disse para um soldado: "Os senhores estão isolando o quê? Tem alguma coisa aqui para ser isolada? Nós viemos buscar o nosso presidente, no maior respeito que ele nos merece, ele nos pertence e queremos prestar-lhe a última homenagem. Já não chega o isolamento de todos esses anos que nos impuseram? Vamos, tirem esta corda". E o soldado tirou.

Rapazes de quinze a vinte anos que, ou não eram nascidos, ou eram crianças bem pequeninas quando você foi presidente, vinham de motocicleta, com camisas escuras e uma faixa com os dizeres: "Ao nosso querido Juscelino, a nossa gratidão". Como é que pode? Nessa idade em que eles não estão dando bola para nada, em que morrer e nascer para eles não faz diferença, como é que tiveram a sensibilidade e a grandeza de perceber o momento histórico que estavam vivendo? Como foi que entenderam que esta terra que pisam, este imenso gramado, este excesso de luz e de espaço, estes palácios, estas praças, as avenidas de imensa beleza, eles o deviam a você?

A ida até a Catedral foi fantástica. os carros andavam em três filas, a vinte quilômetros, entre outros carros e outras gentes que aguardavam a sua passagem: você foi num carro preto, nada bonito. Mas ninguém se importou muito com essas coisas. Você nunca ligou mesmo para as aparências.

A Catedral de Brasília era só flor e candango. Nunca vi uma combinação mais perfeita: a singeleza da flor misturada à pureza dessa gente pobre e simples.

Bateram palmas quando você chegou. Não entendi bem na hora, mas, passada a minha burrice, percebi que estavam felizes de ter você com eles. Você vivo, não deixariam. Você morto, deixaram.
Um homem escuro queria saber se você seria enterrado no cemitério comum. Eu respondi que sim. Ele sorriu e respondeu: que bom, agora a gente vai até querer morrer para ficar perto dele.

Ah, ia me esquecendo de contar: tinha índio também, uma porção de índios. Na realidade, tinha de tudo. Mas, o forte mesmo, a massa humana, era de gente simples, aquele tipo de gente que você sempre amou, gente que sempre sofreu calada, que suportou tudo, que engoliu tudo, humildemente.

Grande parte daquela gente que não pôde entrar na catedral. Mas deu um jeitinho de vê-lo através dos vidros. Até lavaram os vidros com aquela piscina circular que o Oscar chamou de espelho d'água. Alguns não resistiram, entraram pelo tal espelho e surgiram do lado de dentro, ensopados.

As coroas eram muitas, centenas. Estavam até bonitas no começo. Mas, depois, os pobres que não tiveram dinheiro para comprar coroas, resolveram homenagear você com as coroas alheias. Foram tirando as flores e jogando sobre você, jogando, na maior felicidade. Parecia uma chuva de flores.

A missa, propriamente, não houve. Foi uma grande confusão de flores, de palmas, de hinos, de choros. A Sarah teve de se dirigir à multidão pedindo calma. Quando prometeu você a eles, foi uma tranqüilidade. Voltou a paz na catedral.

Mas foi paz por muito pouco tempo. Porque, quando você chegou lá fora, para ser colocado noutro carro (acho que esse não era preto, e sim vermelho, parecia carro de corpo de bombeiro), tomaram-no nos braços, como num forte abraço de amigos que não se encontram há anos, e levaram-no, cantando, pelas avenidas da sua Brasília.

Eram seis horas da tarde, a sua hora, a hora do pôr do sol que você tanto adorava. Choravam e cantavam. A voz saía meio desentoada, mas era o tal nó na garganta que dá na gente quando a emoção é muita. Sarah, entre amargurada e feliz, seguiu com as suas filhas a procissão. Sim, procissão. Era o que parecia. Era o que era. Elas estavam muito tristes, muito altivas. pareciam carregadas de orgulho.

O caminho era longo, vários quilômetros. mas ninguém estava preocupado com isso. Ninguém estava pensando em metros. Todos já haviam caminhado tanto por este mundo. Tanto. Daqui para ali, dali para aqui, sem destino nenhum.

Agora, neste exato momento, tinham um destino: colocar em repouso um homem exausto de tanto sonho e de tantas desesperanças. Deitá-lo para dormir em paz, ao som do hino de sua pátria e da canção de ninar que sua mãe costumava cantar, ao adormecê-lo. Fazê-lo descansar das canseiras do mundo, dos sonhos sonhados alto demais, das esperanças esperadas demais. Adormecê-lo assim, como se adormece uma criança exausta de trombas na mesa, nas cadeiras, na vida.

Deixá-lo quietinho, sem o perigo de acordar e ter que dessonhar tudo de novo, desapontando-se.

Dar-lhe a paz que sempre desejou, mas que nunca pôde ter, pelo seu temperamento ruidoso e pela mania de ter aspirações grandiosas.
Deixá-lo ali, sozinho e tranqüilo, sabendo que ninguém mais, ninguém mesmo, poderá feri-lo.

Receba o meu último, e o mais emocionado de todos os beijos.

Vera

Brasília, 25 de agosto de 1976

 

 

Considerações à margem:

Cruvinel querido:
Os jovens de trinta anos estavam engatinhando quando o Juscelino morreu.Hoje, sem rumo e sem prumo, não sabem em quem se espelhar.

É necessário que falemos do JK, para que se animem e se inspirem. Foi esse o meu objetivo, ao publicar essas cartas.
Carinhoso abraço,
Vera

Vera Brant
Nasceu em Diamantina, completando seus estudos em Belo Horizonte. No Rio de Janeiro, para onde se transferiu a seguir, exerceu o cargo de Inspetora de Ensino do Ministério da Educação. Mudou-se para Brasília em 1960, trabalhando então ao lado de Darcy Ribeiro no esforço de criar a Universidade de Brasília.
Demitida pelo golpe militar em 1964, hoje é empresária do ramo imobiliário. Além de Ensolarando sombras, Vera Brant publicou ainda A ciclotímica, A solidão dos outros e Carlos, meu amigo querido, que reúne treze anos de correspondência com o poeta Carlos Drummond de Andrade.
Recentemente, publicou dois livros: JK – O reencontro com Brasília, da editora Record e Darcy, da editora Paz e Terra.
http://www.verabrant.com.br